Quatro frentes, uma só guerra: o dia em que o Vasco tentou resolver um ano inteiro em uma tarde

Não é todo dia que um clube resolve — ou pelo menos tenta resolver — praticamente tudo o que está em aberto ao mesmo tempo. Nesta sexta-feira, o Vasco fez isso. Em poucas horas, o Tribunal de Justiça do Rio suspendeu a intervenção judicial que havia tirado Pedrinho do comando da SAF, o clube anunciou Pedro Emanuel como novo técnico, e ficou mais evidente do que nunca o caminho para destravar a venda da Nova SAF a Marcos Lamacchia. No boletim do dia, são notícias separadas. Lidas juntas, contam uma história só: a de uma diretoria tentando, ao mesmo tempo, recuperar o controle sobre o próprio clube, vender esse controle para quem está disposto a pagar por ele, e ainda arrumar tempo para colocar alguém no comando técnico do time.
A liminar cai, o conselho volta — com ressalvas
Vale lembrar de onde isso começou. Em 23 de junho, a juíza Caroline Fonseca, da 4ª Vara Empresarial, atendeu a um pedido da 777 Carioca e afastou Pedrinho, Christiano Stockler Campos e Felipe Elias do Conselho de Administração da Vasco SAF, apontando falhas de governança: assembleias não convocadas para as demonstrações de 2024, atas de 2025 não disponibilizadas, ausência de diretor financeiro formalmente investido no cargo e um patrimônio líquido negativo que, mesmo depois do plano de recuperação judicial aprovado, seguia na casa dos R$ 647 milhões. Para administrar a SAF nesse meio-tempo, a Justiça nomeou a advogada Samantha Mendes Longo como interventora — que renunciou poucos dias depois alegando um fato grave, em um episódio que a própria diretoria do Vasco usaria mais tarde como munição jurídica.
Dali em diante foi uma sucessão de movimentos: pedido de reconsideração, desembargadores se declarando suspeitos, uma nova interventora indicada — o advogado Athos de Andrade Figueira Neves — enquanto o processo tramitava. Na quarta-feira (8), a juíza Simone Gastesi Chevrand negou a reconsideração e manteve a intervenção, ainda que esclarecendo que ela não alcançava o departamento de futebol: contratação de treinador, negociação de jogador, nada disso estava, tecnicamente, paralisado. Foi só nesta sexta que o desembargador César Felipe Cury, da 20ª Câmara de Direito Privado — o mesmo que, em 2025, já havia dado uma decisão favorável ao Vasco na disputa com a 777 — concedeu efeito suspensivo parcial ao agravo do clube, a poucos dias da reabertura da janela de transferências, marcada para o dia 20. Na prática: Pedrinho, Stockler Campos e Elias voltam ao Conselho de Administração, a interventora sai, e o CRVG recupera a prerrogativa de recompor os cargos da SAF.
É uma vitória real, mas não é ponto final. A decisão desta sexta é liminar dentro do próprio agravo — o mérito ainda será julgado pela 20ª Câmara —, e o desembargador manteve uma bateria de exigências: esclarecimento em três dias sobre a situação do diretor financeiro, cronograma para regularizar as demonstrações contábeis, entrega de documentos pendentes ao Conselho Fiscal e à Administração Judicial, nomeação de um profissional independente para fiscalizar a governança e aviso prévio ao juízo da recuperação judicial para operações de maior impacto econômico. O comando volta às mãos de Pedrinho, mas sob um monitoramento que não vai desaparecer tão cedo — e a 777 Carioca ainda tem caminhos para recorrer.
A venda que só faltava assinar
Se o resultado desta sexta tivesse saído há duas semanas, talvez já estivéssemos falando de contrato assinado. Porque, segundo a carta que o próprio Vasco protocolou na Justiça na quarta-feira, o empresário Marcos Lamacchia — filho de José Roberto Lamacchia, fundador da Crefisa, atuando por meio da Almirante Participações e Empreendimentos S.A., empresa criada em abril de 2024 justamente para essa operação — está pronto para comprar 90% da Nova SAF assim que as condições jurídicas permitirem. A estrutura prevista no plano de recuperação judicial passa pela venda da chamada UPI Equity, um processo competitivo no qual Lamacchia entraria como stalking horse bidder: o primeiro a apresentar proposta vinculante, fixando o piso de valor para que outros interessados possam, se quiserem, oferecer mais.
Segundo a própria carta, mais de dois anos de negociação já deixaram fechados os termos comerciais, jurídicos e financeiros da operação — faltava apenas assinar. E as duas condições que Lamacchia colocou para destravar essa assinatura eram exatamente as que a decisão desta sexta endereça: fim da intervenção judicial, com a antiga estrutura de governança reconduzida ao posto, e encaminhamento das irregularidades apontadas pelos órgãos de fiscalização. Não é uma venda fechada — ainda restam etapas do plano de recuperação judicial, o processo competitivo da própria UPI Equity e as aprovações societárias exigidas —, mas está, hoje, mais perto do que jamais esteve desde que o imbróglio com a 777 começou.
Um técnico para uma casa que ainda está em obras
Enquanto tudo isso se resolvia nos tribunais, o departamento de futebol tentava seguir seu próprio calendário. Renato Gaúcho deixou o cargo em 18 de junho, e o Vasco levou mais de três semanas — passando por sondagens a nomes como Franclim Carvalho, Rafael Guanaes e Fernando Seabra, sem que nenhuma avançasse — até anunciar, nesta sexta à noite, a contratação do português Pedro Emanuel. Aos 51 anos, ele chega com contrato até dezembro de 2027, acompanhado de uma comissão técnica de quatro nomes, e tem no currículo a passagem como auxiliar de José Mourinho no Porto campeão da Champions League em 2003/04, além de trabalhos recentes no Oriente Médio, no Al-Fayha saudita. Treino em São Januário já neste sábado, apresentação oficial marcada para segunda-feira, e estreia praticamente imediata contra o Vitória.
A recepção da torcida, até aqui, tem sido mais morna do que festiva — uma enquete do próprio noticiário vascaíno chegou a apontar mais de 60% de reprovação à escolha, reflexo talvez menos do currículo do treinador e mais do cansaço de uma torcida que já perdeu as contas de quantas vezes ouviu "agora vai" nos últimos anos. Pedro Emanuel assume um time castigado pela instabilidade fora de campo e nada confortável dentro dele: pouco mais de 40% de aproveitamento e apenas cinco vitórias em dezesseis rodadas do Brasileiro, mais perto do Z4 do que qualquer torcedor gostaria a esta altura da temporada. E assume sem saber muito bem quem estará no comando do clube que o contratou daqui a um mês.
O que fica desta sexta-feira
As quatro notícias do dia não são capítulos separados: são a mesma disputa vista de quatro ângulos diferentes. A briga pelo Conselho de Administração é, no fundo, uma briga por quem decide o futuro financeiro do clube. Essa mesma decisão é o que travava — e agora ajuda a destravar — a venda para Lamacchia. E é essa instabilidade, arrastada por mais de dois anos, que fez o Vasco demorar um mês inteiro para contratar um técnico em pleno meio de temporada, numa briga direta contra o rebaixamento. Ganhar uma liminar não paga dívida, não põe zagueiro na área nem garante gol. Mas destrava. E depois de dois anos em que o Vasco pareceu decidido menos em campo do que em audiência, destravar já é, por enquanto, a vitória possível.