Vasco da Gama: Um mito português - 17/05/98 - Folha de S.Paulo
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VASCO DA GAMA
Um mito portuguêsBiógrafo indiano de Vasco da Gama explica como navegador serviu à propaganda nacionalista
JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA
especial para a Folha
Sanjay Subrahmanyam, 37, nascido em Nova Deli, lecionou nas universidades de Filadélfia, de Minneapolis, de Lisboa e de Deli. Atualmente encontra-se em Paris, na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Depois de publicar, em 1993, um exaustivo estudo sobre a presença portuguesa no sul da Índia ("O Império Português na Asia, 1500-1700", Difel, 1996), o historiador, no início do ano passado, lançou uma polêmica e muito comentada biografia do navegador Vasco da Gama ("The Career and Legend of Vasco da Gama", Cambridge University Press, leia à respeito na pág. 5-6). Na entrevista que se segue, concedida à Folha por e-mail, Subrahmanyam dá a conhecer um pouco desse seu trabalho.
Folha - De que maneira o seu livro aborda a relação entre a vida
de Vasco da Gama e o contexto
histórico no qual ela se insere?
Sanjay Subrahmanyam - Sabemos pouco da vida de Vasco da
Gama. Os documentos são escassos e parece-me quase impossível
fazer uma verdadeira biografia no
sentido vulgar. Era necessário por
causa disso recorrer muito ao contexto, mas devo dizer também que
sou historiador e não me sinto capaz de escrever uma biografia como faria um profissional de biografias. O livro de Geneviève Bouchon tenta fazer essa biografia, mas, como se vê, a sua
única saída foi escrever uma espécie de romance. Uma editora francesa disse-me que não queria publicar o meu livro em francês, pois
não era uma biografia. É verdade.
Mas ao mesmo tempo, parecia-me
pouco útil dizer -como faz Jacques Le Goff no seu livro "Saint
Louis": "Vasco da Gama, a-t-il
existé?" (Vasco da Gama, ele existiu?). Com certeza, não há no meu
livro um retrato psicológico complexo, e o homem é sempre visto
no contexto, sobretudo no contexto político.
Folha - Seu livro analisa em detalhes a construção do mito Vasco da
Gama. Quais são os pilares desse
mito? Em que conjuntura ou conjunturas históricas essa construção
teve lugar?
Subrahmanyam - Há vários mitos, e os mais recentes utilizam em
parte (mas só em parte) os mais
antigos. A minha idéia é que já a
propaganda manuelina utiliza
Vasco da Gama como contrapeso
do mito de Colombo e que o próprio Vasco da Gama utiliza em seguida o seu mito contra d. Manuel.
As crônicas do século 16, a partir
de meados do mesmo século, contribuem de uma maneira clara para a criação do mito. A família dos
Gama também participa nessa
criação e parece evidente que, a
partir de "Os Lusíadas", o mito
ganha uma dimensão e um estatuto enormes em Portugal. Há quem
diga que, durante o período filipino em Portugal, a figura foi utilizada na parenética e nas pregações
anti-espanholas. Talvez, não tenho certeza. Em seguida, temos toda uma série de poetas e de autores
do século 18 que escreve utilizando
no essencial o Gama de Camões.
No século 19 temos a reinvenção
do Gama, mais uma vez com base
em "Os Lusíadas", mas também
para mostrar aos outros europeus
que o pequeno Portugal tem uma
grande envergadura, tem os seus
heróis iguais a quaisquer da Inglaterra ou da França. Não são Isaac
Newton ou Jean-Jacques Rousseau, não são heróis do pensamento, mas verdadeiros heróis de ação.
É curioso ver que no século 16 era
muito mais possível criticar Vasco
da Gama que no século 19.
Folha - Em seu livro, o sr. dedica
um substantivo espaço à análise
da Ordem Militar de Santiago. Em
linhas gerais, que papel teve essa
ordem na vida de Vasco da Gama?
Subrahmanyam - A Ordem de
Santiago tinha um papel secundário em relação à Ordem de Cristo,
cuja ação é muito mais conhecida
por causa do Infante d. Henrique.
Mas, nos finais do século 15 e inícios do século 16, a relação entre as
duas é muito complexa. No final
de contas, a Ordem de Santiago
parece uma espécie de contrapeso,
ainda que fraco, à Ordem de Cristo.
Mais tarde, em meados do século
16, as duas ordens perdem a autonomia e são integradas no funcionamento da coroa.
Na primeira parte da carreira,
Gama foi estreitamente ligado à
Ordem de Santiago, tal como o seu
pai antes dele. A partir de 1506 ou
1507, afasta-se da ordem e tem
conflitos com o seu mestre, d. Jorge, filho bastardo de d. João 2�. A
meu ver, esse processo está relacionado com o fato de Gama buscar uma carreira menos marginalizada e mais integrada na corte.
Mas teve pouco sucesso nessa tentativa.
Folha - A chamada expansão marítima, especialmente a aventura
rumo ao oceano Índico, era uma
questão consensual dentro da corte portuguesa ou, ao contrário, era
um tema que suscitava polêmicas
e divisões?
Subrahmanyam - Evidente que
havia divisões, o que foi mostrado
primeiro por Jean Aubin e depois
por Luís Filipe Thomaz. E, antes
deles, foi comentado em breve por
Alexandre Lobato. Em termos gerais, há grupos que têm concepções políticas opostas quanto ao
comercio da coroa, quanto à idéia
da reconquista de Jerusalém,
quanto à presença na África do
Norte etc. E, de fato, uma das funções dos grandes mitos seria de
criar a ilusão de um acordo para
esconder a divisão na própria elite.
Na historiografia portuguesa,
muitas vezes a expansão aparece
como uma ação coletiva, em que
todos participaram. Alguns neomarxistas insistem em que a expansão está associada à luta de
classes, à ascensão social etc. Mas,
de fato, a luta dentro de uma classe
é também um fator a tomar em
conta.
Folha - A que razões o sr. atribui
o sucesso dos lusitanos na condução dessa aventura? A tese das expedições secretas pelo Atlântico,
algumas das quais conduzidas pelo próprio Vasco da Gama, merece
algum crédito?
Subrahmanyam - A idéia das
expedições secretas (ou desconhecidas) no Atlântico não me parece
totalmente inacreditável. Mas, no
caso do oceano Índico, parece absurdo. E o papel de Gama nisso é
pura fantasia de Armando Cortesão. É sempre difícil mostrar que
uma coisa não aconteceu. Eis a
vantagem dos argumentos "ex silentio".
Folha - A certa altura, o sr. fala de
um confronto, no interior da corte
portuguesa, entre os partidários
de uma visão messiânica e os defensores de uma visão mais pragmática dos descobrimentos. A presença portuguesa no Índico refletiu essa divisão? Qual a posição de
Vasco da Gama no conflito?
Subrahmanyam - Os partidários duma visão messiânica são essencialmente as pessoas próximas
ao rei d. Manuel, isto é, Duarte
Galvão e em certa medida d. Martinho de Castelo-Branco, o vedor da
fazenda, e mais tarde o genro de
Duarte Galvão, Duarte Pacheco
Pereira. Também Afonso de Albuquerque, como se depreende claramente de suas cartas, pertence a
esse grupo.
Vasco da Gama, pelo contrário,
está muito mais ligado a d. Francisco de Almeida e a um outro vedor da fazenda, o barão de Alvito.
São gente mais pragmática, mas
nem por isso mais capaz de perceber as realidades do Índico na época. Em geral, como foi mostrado
por Luís Filipe Thomaz, há uma alternância no Índico entre governadores portugueses dum lado e
do outro, com certas exceções
mais complicadas, como Diogo
Lopes de Sequeira (1518-1521).
Folha - A terceira viagem de Vasco da Gama à Índia, então na qualidade de vice-rei, é descrita pelo
sr. como o coroar de uma carreira.
Gostaria que o sr. comentasse como se deu essa volta gloriosa do
navegador e como foi a sua curta
atuação no cargo de vice-rei?
Subrahmanyam - Não posso
utilizar frases como "volta gloriosa" sem sorrir. É preciso uma certa ironia para tratar com esses processos. É o coroar duma carreira
do ponto de vista do próprio Gama, quando vai tentar fazer funcionar a sua própria concepção
das coisas. Concepção segundo a
qual era necessário reduzir o número de fortalezas, reduzir o Estado da Índia a um punhado de centros -Goa, Cochim e pouco
mais-, deixando o resto nas
mãos de particulares, sobretudo
na mão de membros da nobreza
portuguesa, capazes de comerciar
no Oceano Índico. Mas parece evidente que não era possível guardar
a concepção na forma pura, já que
existia a ameaça dos castelhanos (a
expedição de Fernão de Magalhães
às Molucas), e dos otomanos. Como resolver isso? Vasco da Gama
não resolveu nada; morreu três
meses após a sua chegada ao Índico. Os sucessores resolveram o
problema de outra maneira, guardaram as fortalezas quase todas
(com duas ou três exceções menores) e até promoveram (na época
de Nuno da Cunha) uma expansão
do Estado.
Folha - A presença portuguesa
na Índia, especialmente em Goa,
quando comparada à presença de
outras nações européias na região,
tem alguma peculiaridade digna
de destaque? Os "brandos costumes" que os portugueses dizem
ter agiram em prol de uma melhor
integração com os povos nativos?
Como o sr. avalia o contributo dessa presença para esses povos?
Subrahmanyam - Esta pergunta
é muito complicada e de fato as diferenças são muitas e muito complexas. Não há uma presença portuguesa, mas várias presenças,
porque os portugueses ficaram lá
durante quatro séculos e meio.
Existe, como consequência, uma
verdadeira aculturação, num campo de poder bem desigual, sem
sombra de dúvida. Mas essa presença não se compara, seja nas dimensões, seja nos processos sociais subjacentes, à presença britânica na India. Não me parece interessante dizer que estes eram melhores que aqueles: não podemos
dar notas num curso de imperialismo.
Folha - Seu livro é permeado de
críticas à historiografia portuguesa, nomeadamente ao excessivo
nacionalismo que marca as análises da expansão marítima e dos
seus heróis. Que prejuízos esse nacionalismo trouxe, se é que trouxe,
para a historiografia dos descobrimentos?
Subrahmanyam - Não me parece verdade que o livro seja permeado de críticas desse gênero. Há,
sim, algumas críticas, às vezes dirigidas às vacas sagradas dessa historiografia, tal como o Vitorino
Magalhães Godinho. O fato é que a
historiografia dos Descobrimentos é, quase por natureza e função,
nacionalista. Entre os historiadores portugueses que trabalham
com o assunto, quem utilizou outros arquivos, outras fontes, tentou ver com outros óculos? Alguns, mas poucos. O curioso é que
são pessoas da esquerda que escrevem e raciocinam dessa maneira:
tal o caso de Godinho, que contou
umas bobagens sobre meu livro a
uma revista portuguesa, porque
não era capaz de responder sobre o
conteúdo científico. Mas, felizmente, há uma nova geração em
Portugal que tentou ultrapassar
em grande medida esse tipo de visão. Mas ainda se pode ler numa
biografia recente de d. Francisco
de Almeida que era vergonha nacional que ele fosse assassinado
por uns selvagens nus na costa da
África ...
Folha - A chegada de Vasco da
Gama a Calicute deve ser comemorada pelos indianos? Como o sr. vê
as manifestações que tiveram lugar no seu país contra essas comemorações?
Subrahmanyam - Vai ser comemorada, mas não celebrada. De fato, há grupos ultranacionalistas na
Índia que vêem toda tentativa de
falar de Vasco da Gama como uma
forma de neo-imperialismo. Em
Portugal, por sua vez, há grupos
que dão razão a esses receios. Nesse país sobrevive, em parte, inclusive entre membros do governo,
um discurso muito nacionalista
(nós, os portugueses, que somos
os melhores do mundo, que descobrimos tudo etc.). Mas há igualmente pessoas mais razoáveis, entre as quais o próprio diretor da
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses, Antônio Manuel
Hespanha, que é um bom historiador e também uma pessoa aberta a
toda opinião razoável. Vou assistir
neste mês a um colóquio em Calicute e Cochim, e sei que, nessa
mesma ocasião, haverá uma manifestação muito politizada para
condenar todos os imperialistas,
começando com Gama e acabando
com o Banco Mundial! Quanto a
isso, o que dizer? Numa democracia, até os malucos têm o direito de
se exprimir (a condição é que não
seja de uma maneira violenta).
Jean Marcel Carvalho França é mestre em sociologia da cultura, doutor em literatura comparada e autor de "O Rio de Janeiro sob a Ótica dos Viajantes" (no prelo).
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